terça-feira, 15 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Martin Drewes

Fonte:
http://www.saladeguerra.com.br/2013/10/nota-de-falecimento-martin-drewes.html



Martin Drewes
(20/10/1918 - 13/10/2013)

Faleceu no último dia 13 de outubro em Blumenau, Santa Catarina, de causas naturais aos 94 anos de idade, o ganhador das Folhas de Carvalho da Cruz do Cavaleiro, meu amigo, Oberstleutnant Martin Drewes.

Nascido no vilarejo de Lobmachtersen, perto de Hannover, Martin era filho do farmacêutico local. Na infância, fez um voo panorâmico com sua mãe, e desde então apaixonou-se pela aviação. Contudo, em novembro de 1937 alistou-se na nascente força de blindados do Exército, sendo designado para o 6º Regimento Panzer. Pouco tempo depois, tornou-se cadete na Escola de Oficiais em Munique, onde conheceu Chiang Wego, filho do líder chinês Chiang Kai-Shek. A amizade entre os dois duraria até a morte de Wego em 1997. Drewes foi comissionado Leutnant em agosto de 1939, e no mês seguinte, à pedido, foi transferido para a Luftwaffe.

Após o treinamento básico de voo, ele foi enviado para a escola de multimotores, onde aprendeu a pilotar aeronaves de médio e grande porte; em seguida, seguiu para a escola de caças pesados, onde adquiriu experiência nos comandos da aeronave que voaria durante toda a Segunda Guerra Mundial: o Messerschmitt Me 110. Concluindo o treinamento em fevereiro de 1941, Drewes foi enviado para o II Gruppe do Zerstörergeschwader 76 (ZG 76), unidade empregada como apoio aéreo na última fase da invasão da Grécia em abril daquele ano.

Ao mesmo tempo, uma revolução anti-britânica acontecia no Iraque, e o novo governo nacionalista pediu ajuda a Hitler para derrotar os ingleses no país. Com os planos secretos de invasão da União Soviética em estágio adiantado, tudo que os alemães puderam enviar foi uma esquadrilha de caça e uma de bombardeio sob comando do Oberst Werner Junck. A esquadrilha de caça escolhida para o Sonderkommando Junck foi justamente a do Leutnant Drewes. Numa manhã de maio no aeródromo de Tatoi, em Atenas, as aeronaves amanheceram pintadas com insígnias desconhecidas e ordens secretas foram dadas aos pilotos para que voassem para base italiana de Rhodes. Em pleno voo, descobriram que seu destino final era o Iraque, onde chegaram em 17 de maio. Naquele dia, Drewes e outros dois colegas atacaram a base aérea da RAF em Habbanyia, mostrando que a Luftwaffe havia chegado ao teatro de operações. Três dias depois, Drewes derrubou sua primeira presa, um solitário Gloster Gladiator. Ao atacar um caminhão inglês dias depois, foi atingido seriamente por tiros de metralhadora e teve que fazer um pouso forçado, vagando pelo deserto até ser encontrado por iraquianos e levado a Bagdá. O pequeno contingente alemão não tinha forças para parar a ofensiva inglesa, e uma evacuação do Iraque foi ordenada.

Retornando à Europa, Drewes passou a voar sobre o Mar do Norte, onde derrubou um Spitfire em 29 de agosto. Promovido a Oberleutnant em 1 de novembro, ele voluntariou-se para uma nova força, recém-criada pelo Oberst Wolfgang Falck: a Nachtjagd (Caça Noturna). Desenvolvida com o objetivo de contra-atacar os bombardeiros da RAF em suas incursões à noite, as unidades de caça noturna utilizavam principalmente o Me 110 e o Junkers Ju 88 como vetores. Guiados por radares de solo e de bordo, interceptavam os alvos em plena escuridão. Após o período de treinamento e adaptação, Drewes foi enviado para a 9ª Staffel do Nachtjagdgeschwader 3 (NJG 3) na Noruega. Seu primeiro abate noturno aconteceu em 17 de janeiro de 1943, quando ele derrubou um quadrimotor Short Stirling sobre Linden, no noroeste da Alemanha. No mês seguinte, recebeu o comando da 7ª Staffel, mas em junho foi transferido para a unidade de elite da caça noturna: o NJG 1, em Leeuwarden, na Holanda. Em agosto, tornou-se comandante da 11ª Staffel, e no dia 3 de outubro, após ser seriamente atingido por destroços de uma de suas vítimas, teve que fazer uma difícil aterrissagem forçada em um morro, escapando da morte por pouco. Quando já contava com 14 vitórias, foi condecorado com a Cruz Alemã em Ouro em 24 de fevereiro de 1944, sendo pouco depois elevado ao comando do III Gruppe, que lideraria até o fim da guerra. Promovido a Hauptmann em abril, Drewes teve sua noite de combate mais bem-sucedida em 22 de maio, quando derrubou 5 Avro Lancasters em sequência, em pouco mais de 90 minutos.

Quando já contava com 48 vitórias e um currículo impecável como comandante, Martin Drewes foi agraciado com a Cruz do Cavaleiro da Cruz de Ferro em 27 de julho de 1944. Promovido a Major em 1 de dezembro, ele alcançou sua última vitória em 3 de março de 1945. Mesmo com a dramática e deteriorante situação dos últimos meses da guerra, Drewes manteve seu grupo em atividade e boa disponibilidade operacional, se tornando o 839º soldado da Wehrmacht a ser condecorado com as Folhas de Carvalho da Cruz do Cavaleiro em 17 de abril de 1945. Ele encerrou a guerra com 52 vitórias aéreas (50 quadrimotores e 2 caças) em 235 missões de combate.

Após ser libertado em 1947, emigrou para o Brasil, onde inicialmente trabalhou para o Departamento de Estradas do estado de Goiás, pilotando Focke-Wulf Fw 58s de aerofotogrametria, realizando o reconhecimento do planalto central para a futura construção de Brasília. Em seguida, conheceu e casou-se com sua esposa Dulce, com quem teve um filho. Trabalhou na gerência de uma fábrica de óleo de coco no Maranhão, e na supervisão de uma madeireira no Amazonas. Na década de 1960, passou a trabalhar como diretor da Volkswagen Seguros, no Rio de Janeiro, de onde aposentou-se nos anos 1980.

Martin Drewes mudou-se para Blumenau, Santa Catarina, em sua aposentadoria. Foi quando publicou sua autobiografia "Sombras da Noite" em 2002, e protagonizou um documentário biográfico, "O Caçador da Noite", em 2008. Ativo participante dos encontros de veteranos na Alemanha, bem como de diversos eventos promovidos pela Força Aérea Brasileira, Drewes era conhecido e admirado em todos os círculos de entusiastas da aviação no país. Em 2011, teve uma extensa biografia publicada na Alemanha: "Sand und Feuer", até o momento disponível somente em alemão.

Viúvo desde 2010, ele sofreu um acidente doméstico em junho de 2013, após o qual sua saúde declinou sensivelmente, vindo a falecer a apenas uma semana de seu 95º aniversário.

Martin Drewes (no camelo) e Adolf Brandstetter no Iraque, maio de 1941.

Drewes (esq) com a equipe de solo junto ao seu Messerschmitt Me 110, 1944.

Martin Drewes e seu ajudante Walter Scheel em Laon, França, março de 1944. Scheel se tornaria Presidente da Alemanha Ocidental em 1974.

Jubileu de Prata da Rainha Elizabeth II, 7 de julho de 1977. Walter Scheel (dir) cumprimenta a Rainha e o Príncipe Phillip. Martin Drewes aparece logo atrás do Príncipe.




terça-feira, 1 de outubro de 2013

O inferno de Verdun - Eles não passarão!



Von Falkenhayn acertou na previsão. A noticia de que Verdun estava ameaçada tocou os brios da França. O Alto Comando não tardou em enviar reforços para deter a qualquer preço as investidas dos alemães. O general Phillipe Pétain, que heroicamente comandou a resistência nos primeiros tempos, deu lugar depois ao general Robert Nivelle, arauto da doutrina do l´attaque à outrance, e ao seu subalterno o general Charles Mangin, apelidado de Le boucher, “O carniceiro”. Milhares de soldados franceses foram transportados pela chamada Voie Sacrée, a Via Sagrada, única estrada que ligava Verdun ao restante do país. Por ela foram despachados em 12 mil veículos, 50 mil toneladas de alimentos e 90 mil homens por semana ( no total 2 milhões de franceses se fizeram presentes na batalha, o equivalente a 70% do exército). Os alemães tiveram o cuidado de jamais bombardeá-la porque a intenção deles era fazer com que os franceses, trafegando desimpedidos por ela, se amontoassem dentro da cidadela para melhor serem massacrados. Para a França inteira, entretanto, impedir que Verdun caísse virou questão de honra nacional, não importando os custos disto.


Com o prolongar dos meses as coisas começaram a tornar-se cada vez mais difíceis para a infantaria alemã. Além das dificuldades de terem que deslocar-se sobre um terreno similar à superfície lunar, escavado por um bombardeio inaudito, a resistência francesa tornou-se sobre-humana. O poilu, o soldado raso francês, determinou-se a cumprir com a promessa do general Nivelle: Ils ne passeront pas! Eles não passarão! Para manterem-nos nas posições , a substituição das tropas era constante. O general Phillipe Pétain e o general Charles Nivelle, adotando o Sistème Noria, tiveram o cuidado de não deixar os seus soldados exaurirem-se nas trincheiras e nos fortes. De tanto em tanto, todos eram removidos e novos regimentos chegavam para assumirem-lhes os postos no fronte. Com tal rotatividade acredita-se que 2 milhões de franceses de algum modo passaram por Verdun. Combates memoráveis foram travados na Colina 304 e no tétrico monte Le Mort-Homme, o sinistro Morte-do-Homem, onde os rivais enfrentaram-se à baionetadas e lutas de mão. Apenas vinte dias depois do primeiro assalto alemão - dilacerados pela artilharia e pelas metralhadoras - as baixas chegaram ao espantoso número de 89 mil franceses e 82 mil alemães mortos, feridos ou desaparecidos. Algo como 8.550 homens perdidos por dia! Foi então que Verdun virou um grande atoleiro com milhares de cadáveres insepultos – o Inferno de Verdun, como os solados passaram a dizer.




No dia 6 de março de 1916, os alemães retomaram o ímpeto ofensivo, conseguindo ocupar, até o meio de abril, mais quatro fortes (Harcourt, Malancourt, Thiaumont e Vaux). A esta altura Verdun transformara-se numa “guerra pela guerra” porque os objetivos originais de fazer sangrar o exército francês “até a última gota de sangue”, como dissera von Falkenhayn, tinham sido totalmente desvirtuados. Outros elementos, psicológicos, motivados pelo ódio patriótico e pelo recalque de antigas quizilas franco-germânicas, entraram em ação. Sem metas estratégicas definidas, a batalha de Verdun virou um cabo-de-força entre alemães e franceses, uma disputa irracional que abateu inutilmente milhares de soldados. Num confronto onde a artilharia foi a rainha das armas, a tragédia de Verdun ficou conhecida como a que produziu o maior número de vítimas por metro quadrado do que qualquer outra batalha da história. Por isso os alemães chamaram-na de Fleischwolf, o moedor de carnes. Calcula-se que foram jogados sobre os estreitos campos de Verdun 43 milhões de petardos, e que somente contra os fortins os alemães lançaram de uma vez só 110 mil granadas de gás venenoso.








O horror sem tréguas sofrido pelos soldados no matadouro de Verdun foi indescritível. Milhares de homens, os melhores exemplares de duas das mais civilizadas e cultas sociedades até então conhecidas, foram reduzidos durante meses a fio, em meio à chuva, à lama, à neve, ao gelo e depois ao sol, à uma vida subumana. Como se fossem trogloditas, vergando os corpos como caramujos, passaram intermináveis horas e dias dentro de buracos e de túneis, de fossos e de cavernas, todas elas imundas, fétidas, invadidas por um repulsivo mau cheiro, assustados pelo silvo dos morteiros e pelo atordoante impacto das bombas e estilhaços que, como chuva pesada, não paravam de cair sobre eles. Enlouquecidos pelo troar incessante das canhonadas, ainda assistiam diariamente os estragos que as metralhas e os lança-chamas faziam sobre os corpos mutilados dos seus camaradas. Os bombardeios enterrava e desenterravam os cadáveres. Os miasmas e odores nauseabundos exalados por todos os lados eram tamanhos que os soldados que freqüentavam as latrinas do Forte Vaux usavam máscaras antigazes. Um número considerável de cartas enviadas pelos combatentes à retaguarda, para os seus familiares, amigos ou amadas, compuseram o que pode-se designar como a “ literatura de Verdun”, coletada por pesquisadores e historiadores da correspondência vinda das trincheiras.. 
Exemplos:
- comentário de um oficial alemão: “ o número de desertores aumentou, os soldados do fronte começaram a ficar insensíveis, apáticos, de tanto verem os corpos sem cabeças, sem pernas, atingidos no estômago, trespassados na testa, com buracos no peito, dificilmente reconhecidos, pálidos e sujos, em meio a lama marrom amarelada que cobre inteiramente o campo de batalha.”
- de um outro soldado alemão: - “ numa única palavra, Verdun. Numerosos rapazes, ainda jovens e cheios de esperanças, deixaram suas vidas aqui – os restos mortais deles estão se decompondo em algum lugar entre as trincheiras, em sepulturas de massa , nos cemitérios..” 
- de um soldado francês: - “ durante os meses de verão os vermes e as moscas assolam os corpos e o fedor, aquele horrível cheiro... quando nós cavamos trincheiras colocamos dentes de alho nas narinas.” 
- um outro testemunho: - “ lama, calor, sede, sujeira, ratos, o doce cheiro dos corpos, o repugnante cheiro dos excrementos e o terrível medo... sinto que temos que ir para ao ataque, e isso justo quando ninguém tem mais vigor”.
- um soldado francês descreve um bombardeamento: - “ Quando você ouve o sibilo cada vez mais próximo todo o seu corpo encolhe-se preventivamente preparando-se para a enorme explosão. Cada nova explosão é um novo ataque, uma nova fadiga, uma nova aflição. Mesmo os nervos daqueles feitos de aço não são capazes de suportar com tal tipo de pressão. O momento vem quando o sangue explode na sua cabeça, a febre ferve no interior do seu corpo e os nervos, entorpecidos pelo cansaço, não são capazes de reagir a mais nada. É como se você estivesse preso a um poste, amarrado por um homem com um martelo...É difícil até rezar para Deus..” 
- um oficial francês observa: - “ Primeiro passam companhias de esqueletos, por vezes comandadas por um oficial ferido, apoiado numa muleta. Todos marcham ou melhor movem-se para frente em ziguezague como drogados. Seus rostos aparentam como se eles tivessem gritando alguma coisa.”

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