sábado, 26 de abril de 2014

Marechal José Pessoa

Ficheiro:Mal Jose Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.jpg

José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, conhecido como marechal José Pessoa, nascido em Cabaceiras - Paraiba em 12 de setembro de 1885, falecido no Rio de Janeiro em 16 de agosto de 1959.

Filho de Cândido Clementino Cavalcanti de Albuquerque e de Maria Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, era sobrinho de Epitácio Pessoa, presidente da República de 1919 a 1922, e irmão de João Pessoa, cujo assassinato foi um dos estopins para o Movimento de 1930 que pôs fim à República Velha.

Início da vida militar (1903-1917)


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c7/Marechal_JOSE_PESSOA.jpg 

Assentou praça em 1903 no 2º Batalhão de Infantaria em Recife, seguindo depois para a Escola Preparatória e de Tática em Realengo (Rio de Janeiro). Transferiu-se em 1909 para a Escola de Guerra em Porto Alegre, de onde saiu aspirante-a-oficial. Esteve à disposição do Ministério da Justiça, servindo na Brigada Policial do Distrito Federal (RJ). Foi ajudante-de-ordens e assistente do comando da divisão de operações enviada a Mato Grosso para pacificar o estado em 1917, posteriormente servindo como ajudante-de-ordens e assistente do inspetor da 10ª Região Militar na Bahia.

I Guerra Mundial & Europa

 

Com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, em outubro de 1917, foi enviado no ano seguinte à França como um dos membros da Missão Militar preparatória que o exército brasileiro enviou à Frente ocidental. Como oficial de cavalaria, em rápido estágio na Escola Militar de Saint-Cyr aprendeu os fundamentos sobre a adaptação desta Arma de Exército à então recente invenção, o tanque de guerra e das táticas, até então desenvolvidas, concernentes à sua utilização em campo de batalha.
Após este estágio, foi designado para o front como comandante de pelotão, no 4º regimento de Dragões, da 2ª divisão de cavalaria do exército francês. Regimento que havia sofrido pesadas perdas durante a ofensiva alemã de março-abril de 1918, e cujas unidades passavam, a exemplo de outras unidades da cavalaria francesa, a utilizar junto aos "antigos" e pesados Schneider e St. Chamond, os modernos e leves Renault FT, que teriam influência decisiva na série de contra-ofensivas aliadas, à partir de julho. Ofensivas estas, que o 4º regimento tomou parte ativamente.
Em sua passagem pelo front, Cavalcanti recebeu condecorações de franceses e belgas por bravura a frente de seus pelotões. Condecorações estas, que ele atribuía à extrema agressividade de seus comandados, soldados da França colonial, que chegaram a lhe presentear com macabros colares feitos com orelhas dos soldados inimigos. Ao final do conflito, vítima de febre tifoide foi internado num hospital de campanha, onde acabou se envolvendo pitorescamente com uma enfermeira inglesa da Cruz Vermelha, Blanche Mary Edward, que viria a se tornar sua esposa.


Em seu retorno ao Brasil, em 1920 foi nomeado em comissão especial para acompanhar os reis da Bélgica, Alberto e Elisabeth. Pela sua experiência com carros de combate na Guerra Mundial participou da organização da primeira unidade de tanques do Exército Brasileiro, permanecendo no comando dessa companhia até 1923, quando foi promovido a major. Foi durante esta época que sua companhia de tanques foi a responsável por deter a marcha dos oficiais rebeldes em direção ao palácio do governo no episódio do Levante do Forte de Copacabana em 1922.

O leve Renault FT-17 foi o tanque mais eficiente da I Guerra Mundial, e o primeiro a ser utilizado pelo exército brasileiro por influência direta de Cavalcanti, que o conhecia bem de sua experiência no Front.


Apesar de, ou por ser de uma importante família políticos, José Pessoa era contrário ao envolvimento dos militares com a política:

“A nossa maneira (dos militares) de fazer política tem sido a gênese de muitas infelicidades para o País. ...Ao assumir esse comando, reuni mestres e cadetes advertindo-os de que seria desaconselhável o trato de assuntos em desacordo com a disciplina militar, separando-me completamente dos políticos. ...Não se deve inferir daí que eu os condene. Absolutamente. ...Mas a política, para os políticos.”

Ainda em 1930, foi nomeado ainda em novembro como novo diretor da Escola Militar do Realengo, o então órgão responsável pela formação dos oficiais de carreira do exército brasileiro. Tendo sido também o idealizador, patrono e fundador do órgão que viria a substituir a Escola situada no Realengo, a AMAN, fundada em 1944, bem como dos novos símbolos do Exército: uniformes históricos, brasão, espadim e da criação do culto à figura de Caxias.
Tendo sido promovido em 1933 a general-de-brigada, enfrentou no ano seguinte um movimento de boicote dos cadetes do estabelecimento que comandava. Inconformado com a solução dada para o caso, demitiu-se do comando da escola, sendo nomeado em seguida inspetor e comandante do Distrito de Artilharia de Costa da 1ª Região Militar no Distrito Federal. Também foi o fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa.

Levante comunista & Estado Novo

 

Em dezembro de 1935, no Rio de Janeiro, esteve presente à reunião dos generais convo­cada em razão do Levante Comunista ocorrido no mês anterior. Essa reunião tinha por finalidade o exame da situação do país após o levante, e a discussão sobre a extensão da legislação referente às leis repressivas existentes para punir os insurretos. Cavalcanti discordou da maioria dos presentes, considerando irrelevan­te a discussão das leis existentes ou de uma nova legislação para punir os crimes cometi­dos, uma vez que o assunto era da competên­cia de juristas, e não dos generais do Exército.
Devido à posição contrária de Cavalcanti em relação à interferência dos militares na política, e a outros atritos com a corrente dominante que se encontrava no poder, o comando do exército não mostrou interesse em investir no desenvolvimento para aplicação também contra eventuais inimigos externos, na então moderna doutrina sobre a utilização de blindados na guerra, uma vez que o principal conhecedor e divulgador no Brasil era Cavalcanti (que a havia registrado em livro lançado em 1921, juntamente com sua experiência na I Guerra), mesmo quando o país entrou na II Guerra Mundial. Tal posição também o afastou paulatinamente do centro do poder militar durante o Estado Novo, durante o qual chegou a ficar detido disciplinarmente.
Sendo durante este período, relegado à funções menores em relação a este centro, promovido a general-de-divisão em maio de 1940, viajou em 1943 ao Paraguai como embaixador extraordinário à posse do presidente daquela nação. Eleito presidente do Clube Militar em maio de 1944, assumiu o cargo em junho e nele permaneceu até junho de 1946.

Questões nacionais e últimos anos

 

Com o fim do Estado Novo, foi nomeado adido militar em Londres de 1946 a 1947. Após passar à Reserva em setembro de 1949, no posto de general-de-exército (sua promoção a marechal ocorreria apenas em janeiro de 1953), continuou participando ativamente da mobilização da opinião pública em favor de uma solução nacionalista para a questão do petróleo, participação que havia se iniciado ainda em 1948, durante a fundação do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), juntamente com Arthur Bernardes e os generais Estêvão Leitão de Carvalho e Júlio Caetano Horta Barbosa. Em torno do CEDPEN se articularam estudantes, jornalistas, militares, professores, entre outros. A Campanha do Petróleo como ficou conhecida, desembocaria no estabelecimento do monopólio estatal em 1953 e na consequente criação da Petrobras em 1954.
Em 1954, foi convidado pelo então presidente Café Filho para ocupar a presidência da Comissão de Localização da Nova Capital Federal, encarregada de examinar as condições gerais de instalação da cidade a ser construída. Em seguida, Café Filho homologou a escolha do sítio da nova capital e delimitou a área do futuro Distrito Federal, determinando que a comissão encaminhasse o estudo de todos. A Comissão de Planejamento e Localização da nova Capital, sob a Presidência de José Pessoa até 1956, foi responsável pela escolha do local exato onde hoje se ergue Brasília.
Faleceu em 16 de agosto de 1959.

Obras

  • "Os Tanks na Guerra Europeia" Rio de Janeiro; Albuquerque & Neves, 1921
  • "Diário de minha vida". Autobiografia, Rio, 1949

Fontes

Bibliográficas

  • Bento, Claudio Moreira. "1810-2010; 200 anos da criação da Academia Real Militar à AMAN" AHIMTB & Graf. Drumond, 2010 ISBN 8560811141 Capítulo "O idealizador da AMAN e de suas tradições"
  • Câmara, Hiram de Freitas. "Marechal José Pessôa: a força de um ideal" BiBliEx 1985 ISBN 8570110995
  • Castro, Celso. "A invenção do exército brasileiro" Jorge Zahar 2002 ISBN 8571106827
  • McCann, Frank. "Soldados da Pátria: História do exército brasileiro, 1889-1937" Cia das Letras 2007 ISBN 8535910840

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Lista de Fabricantes da Cruz de Ferro - 2º Classe 1914 (Iron Cross - EK2 - 1914)


Iron Cross - EK2 - 1914

A Cruz de Ferro de 2ª classe era uma condecoração que foi confeccionada por diversos fabricantes na Alemanha e em outros países. Aqui eu coloco uma lista de alguns deles, mas infelizmente muitas das marcas são de fabricantes desconhecidos, pois muitas das informações foram perdidas com o passar dos anos.
Esta lista foi feita por mim em um estudo cruzando algumas tabelas que existem na intenet, e por sites de objetos de prata fabricados na Alemanha no final do século 19, início do século 20 e por peças de minha coleção.
A marca do fabricante geralmente é encontrada no anel que é passado a fita mas em alguns casos, ela aparece no Frame.

"Quik nos fabricantes em marron, para ver a foto com os tipos de carimbos."


+
Desconhecido
Desconhecido
A
Assmann
Lüdenscheid
AP
Desconhecido
Desconhecido
AWS
A. Werner & Sohne
Berlin
B
Desconhecido
Desconhecido
BD
Bernhard Dietrich
Altenburg
BD 800
Desconhecido
Desconhecido
C
Desconhecido
Desconhecido
CD
Carl Dillenius
Pforzheim
CD 800
Carl Dillenius
Pforzheim
CR
Desconhecido
Desconhecido
D
Desconhecido
Desconhecido
E
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
EW
Desconhecido
Desconhecido
F
Desconhecido
Desconhecido
D.R.G.M. 653146
Paul Meybauer
Berlin
FO
Friedrich Orth
Wien
Fr
Friedländer
Berlin
FR
Frank & Reif
Stuttgart
FW
Franz Xaver Wimmer
München
G
Godet & Sohn
Berlin
GD
Godet & Sohn
Berlin
H
Paul Hossauer
Berlin
Hermann Bauer
Schwäbisch Gmünd
HB .800
Hermann Bauer
Schwäbisch Gmünd
HBG
Desconhecido
Desconhecido
H.B.O.
Desconhecido
Desconhecido
I
Desconhecido
Desconhecido
IVI
Desconhecido
Desconhecido
IW
Iohann Wagner & Sohn
Berlin
J
C. E. Junker
Berlin
JW
Johann Wagner & Sohn
Berlin
JWS
Johann Wagner & Sohn
Berlin
K
A.E.Kachert
Wien
K 800
Desconhecido
Desconhecido
K 5
Desconhecido
Desconhecido
K.A.G.
Desconhecido
Desconhecido
KAW
Desconhecido
Desconhecido
KC
Desconhecido
Desconhecido
KD
Desconhecido
Desconhecido
KM
Königliche Muenzamt Stuttgart
Stuttgart
KM .800
Königliche Muenzamt Stuttgart
Stuttgart
K.M.st
Koenigliches Muenzamt
Stuttgart
Königliches Münzamt Orden
Berlin
KO 800
Königliches Münzamt Orden
Berlin
KP
Desconhecido
Desconhecido
L
Desconhecido
Desconhecido
LM
Desconhecido
Desconhecido
LV
Desconhecido
Desconhecido
LV 26
Desconhecido
Desconhecido
LV 11
Desconhecido
Desconhecido
LW
Desconhecido
Desconhecido
M
Desconhecido
Desconhecido
M+
Desconhecido
Desconhecido
+M+
Desconhecido
Desconhecido
+M+O
Desconhecido
Desconhecido
MEH
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
MM
Desconhecido
Desconhecido
N
Neun
Rösner, Sachsen
O
Desconhecido
Desconhecido
OSM
Desconhecido
Desconhecido
P
Desconhecido
Desconhecido
PH
Paul Hossauer
Berlin
Pr
Desconhecido
Desconhecido
PS
Desconhecido
Desconhecido
PS 800
Desconhecido
Desconhecido
R
Alfred Rösner
Dresden
R.SCH.
Desconhecido
Desconhecido
RW
Desconhecido
Desconhecido
S
Heinrich Schneider
Dresden (Schneider)
Sy-Wagner
Berlin
S-W 950
Sy-Wagner
Berlin
T
Desconhecido
Desconhecido
U
Desconhecido
Desconhecido
V
Desconhecido
Desconhecido
W
Wagner
Berlin
Wa
Wagner
Berlin
we
Desconhecido
Desconhecido
Wien
Desconhecido
Desconhecido
Wilm
H.R. Wilm
Berlin
Wilm 800
H.R. Wilm
Berlin
WMS
Desconhecido
Desconhecido
WS
Walter Schott
Berlin
W & S
Wagner & Sohn
Berlin
Wu-S
Wagner & Sohn
Berlin
Y
Desconhecido
Desconhecido
Z
Zeich
Berlin
ZS
Zesch
Stuttgart


Em algumas Cruzes é encontrado apenas um contraste com o teor da prata.
.500
.750
.800
.835
.900
.925
.935
.938
.950
.Lua Crescente com Coroa para marcar .800
 
Nota: consultas feitas no site: www.kaisersbunker.com/ e no Guia e-Bay.com.au (elitemilitaria)
Texto e estudo: Milton Basile  http://miltonbasile.blogspot.com.br/

terça-feira, 1 de abril de 2014

Uma guerra que o Brasil esqueceu

Navios mercantes torpedeados na costa brasileira. Militares brasileiros entrando em combate. Colônia alemã atacada. Espiões alemães presos no Rio de Janeiro. Comboios navais e militares estrangeiros no Brasil. Você está pensando na Segunda Guerra Mundial? Errou. Isso aconteceu na Primeira Guerra Mundial, a guerra que o povo brasileiro esqueceu.
A Primeira Guerra Mundial começou em 1914. As potências centrais, Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano partiram para cima da França e da Bélgica. A carnificina de soldados e o impasse foram a tônica do conflito. A Rússia sai do combate, em acordo com a Alemanha e desenvolve sua própria guerra interna, a Revolução Russa (Maximalista, depois conhecida como Comunista), deixando de lado o massacre europeu. O último Czar foi deposto em 23 de fevereiro. Em 6 de abril de 1917 os Estados Unidos saem da neutralidade e declaram guerra à Alemanha. Uma participação pouco citada é a de tropas portuguesas nos campos de batalha franceses, sob comando britânico: 7.000 baixas lusitanas semiesquecidas na história.
Em setembro de 1916, o jornal português "O Século" noticiava o alistamento no exército de Portugal do primeiro oficial judeu, Judah Bento Ruah, sobrinho de Joshua Benoliel, fotógrafo tanto de "O Século" como de "Illustração Portugueza." O jornal cita que havia apenas mais um judeu oficial da marinha "dos mais distintos e illustrados", mas não cita seu nome. Esse alistamento foi para ir ao campo de batalha na França na Primeira Guerra Mundial. Portugal levou 30.000 homens aos campos de batalha. Judah Bento Ruah, acaba por ter uma vida fascinante e produtiva. Seguiu o trabalho em fotografia de seu tio e em 13-jan-1917 é o fotógrafo das crianças do "Segredo de Fátima", fotos das mais importantes para os católicos desde então. Depois, se formou em engenharia, trabalhou na África portuguesa, escreveu "Mestiços: Mulatos de Moçambique" nos anos trinta e sobre relações étnicas em Ruanda. Faleceu em 1958.

JUDAH BENTO RUAH
Judah Bento Ruah (meio careca com terno e colete) está ao centro à direita do baixinho de óculos – foto do arquivo português

O primeiro navio brasileiro a ser afundado foi o cargueiro Rio Branco operado por noruegueses sob bandeira britânica. Navegava em águas restritas e de acordo com a visão de “regras de guerra” da época, o ataque de 3 de maio de 1916 foi considerado legítimo. Os períodos históricos muitas vezes se confundem. Esse afundamento ocorreu enquanto a Guerra do Contestado (1912 a agosto de 1916) ainda abalava o Paraná e Santa Catarina. A neutralidade brasileira significava comerciar com bloco germânico e o aliado. O café brasileiro era consumido pelos vários países em combate: representava 53% na pauta de exportações. A borracha participava com 26%. No início de 1917 a Inglaterra determinou um bloqueio às exportações de café alegando o espaço nos navios ser mais útil para outros insumos exigidos pela máquina de guerra. Numa rápida reação a Alemanha autorizou seus submarinos a afundar qualquer navio numa zona restrita de bloqueio. Navios corsários alemães, naus mercantes disfarçadas e armadas com canhões, também caçavam navios cargueiros no litoral brasileiro. Alguns corsários foram abandonados em nossas costas e bocas de rios. 

No início do século 20, o Brasil era tão alinhado à Alemanha que o projeto e construção da linha de defesa da Baía da Guanabara era de engenheiros alemães com canhões, cúpulas blindadas, usinas de força e até blocos de concreto pré-fabricados na Alemanha. A linha dos grandes fortes, hoje monumentos e museus, composta pelo Forte de Copacabana iniciado em janeiro de 1908; Ilha da Laje, no meio da baía, completada em 1906 e Imbuí, em Niterói, inaugurado em 1901, no fim das contas foram um desperdício, pois jamais qualquer país do século 19 para cá teve planos de nos invadir por este ponto. A Marinha Mercante brasileira passou a ser atacada constantemente. 

O Brasil permaneceu neutro até o navio Paraná, um dos maiores cargueiros brasileiros, deslocando 4.466 toneladas e carregado de café ser torpedeado por um submarino alemão na região do cabo Barfleur, na França, no dia 5 de abril de 1917: três brasileiros foram mortos. O Paraná tinha bandeira brasileira e a palavra “Brasil”, enorme, pintada no casco. O submarino ainda emergiu e disparou cinco tiros de canhão contra os sobreviventes. A reação popular ocorreu nas áreas de maior concentração de imigrantes alemães. Milhares de pessoas saíram às ruas em Porto Alegre. As manifestações ordeiras rapidamente degeneraram em ataques contra a colônia alemã. A Sociedade Germânia, o Hotel Schmidt, o clube Turnebund e o jornal Deutsche Zeitung foram depredados e queimados. Esse momento é tão significante e esquecido que os EUA declaram guerra à Alemanha no dia seguinte. 

Os jornais em alemão foram proibidos no Brasil. Em diversas capitais houve manifestações menores até o Brasil abandonar a neutralidade. Descendente de alemães e considerado germanófilo, o então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Lauro Müller convocou uma reunião com embaixadores e representantes de outros países sul-americanos, em Petrópolis, obtendo apoio para uma tomada de posição contra a Alemanha. Poucos dias depois, a polícia descobre uma estação de rádio clandestina alemã, operando em Niterói, cuja missão era relatar o movimento na Baía da Guanabara: a saída de comboios para a Europa e a presença de navios de guerra de outros países, tornando-os alvos para submarinos e corsários. De 1917 até o final da guerra, 22 comboios de navios mercantes, escoltados por embarcações militares saíram do Rio de Janeiro para a França. A dificuldade em obter navios de escolta levou os britânicos a transformar velhos couraçados em escoltas de comboios, a aceitar um grupo de destroieres japoneses que operou no Mediterrâneo e ceder contra-torpedeiros britânicos para tripulações nipônicas.
Com forte clamor popular, o governo brasileiro rompe relações diplomáticas com os países do bloco germânico seis dias depois do ataque ao Paraná. Como primeira medida, nossos portos são abertos para a navegação aliada. Rapidamente quatro encouraçados americanos são deslocados para as costas brasileiras. No mesmo decreto o Brasil confisca 42 navios alemães que estavam em nossos portos. Grande parte deles foi sabotado e suas tripulações se tornaram prisioneiras de guerra no Brasil. O contra-torpedeiro Maranhão encontrou em Combari, perto de Santos, São Paulo, instalações que poderiam ser uma base para submarinos alemães. Em 20 de maio, o Brasil perde mais um navio mercante: o Tijuca, torpedeado perto da costa francesa. No dia 27 de julho o navio Lapa foi atacado com três tiros de canhão disparados por um U-Boat (submarino) alemão. Um dos navios confiscados, rebatizado de Macau foi interceptado por um U-Boat a 200 milhas da costa espanhola em 23 de outubro. Seu comandante e o dispenseiro foram aprisionados e nunca mais vistos. Em seguida o navio foi torpedeado e afundado.
Rui Barbosa, o mais importante político da oposição discursou afirmando que o abandono da neutralidade não era suficiente e questionou se a vida dos brasileiros era menos importante que a vida dos americanos, pois já tinham declarado guerra à Alemanha. A pressão do público contra a Alemanha aumenta e o presidente Wenceslau Brás declara guerra à aliança germânica em 26 de outubro de 1917. 


DNOG pres Wenceslau Bras assina delcaracao de guerra
1917 - Pres Wenceslau Bras assina a declaração de guerra à Alemanha – foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil

 
Ao longo do conflito alguns imigrantes franceses voltaram do Brasil para se alistar nas forças francesas e participaram de combates. Seu número não é conhecido. Brasileiros natos também lutaram no exército francês e sequer seus primeiros nomes têm registro. No cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, há um mausoléu para 98 destes homens, cinco deles brasileiros natos mortos em combate e vários deles, judeus.
Já existia no Brasil a força aérea da Marinha com aviões de patrulha e reconhecimento. Oito pilotos, sete da Marinha e um do exército foram para a Inglaterra e receberam treinamento de combates, passando a ser nossos primeiros, e também esquecidos, pilotos de caça. O tenente Possolo morreu em uma colisão com um avião pilotado por um inglês, sendo nosso primeiro piloto a perder a vida. As coisas se cruzam quando nosso Grande Templo Israelita, recebe sua pedra fundamental, lançada pelo presidente da república, exatamente na esquina da rua Tenente Possolo. Completado o treinamento, nossos pilotos integraram uma esquadrilha com americanos e ingleses e participaram do conflito até seu final. Brasileiros também participaram com um hospital de campanha com 92 médicos, dez deles militares, mas todos incorporados ao exército com patentes de oficiais. Havia ainda farmacêuticos, pessoal de apoio e soldados brasileiros para a segurança das áreas hospitalares. Esse contingente foi importante quando o surto de Gripe Espanhola atingiu a população civil francesa. 


DNOG os sete aviadores da marinha
Os pilotos de combate da aviação naval brasileira que participaram da Primeira Guerra Mundial em foto oficial durante treinamento na Inglaterra - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil
Antes da criação da D.N.O.G. (Divisão Naval em Operações de Guerra), oficiais brasileiros foram enviados em missões de combate nas frotas inglesas. Um deles chegou a participar da emblemática Batalha de Jutlândia. Em terra, oficiais do exército entraram em combate. O tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, comandou pelotões de cavalaria francesa de três regimentos diferentes. Um deles uma pequena unidade do 504o Regimento de Dragões, equipados com os primeiros tanques de guerra franceses: os Renaults FT-17. Ao voltar ao Brasil com o relato da nova maravilha dos campos de batalha, o país comprou um lote de 12 unidades de tanques FT-17 e o General Albuquerque é conhecido como o pai das forças blindadas brasileiras.
DNOG almirante FrontinA D.N.O.G. foi criada dia 30 de janeiro de 1918 comandada pelo contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin (foto ao lado) como parte das forças britânicas. Seus navios eram os cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia, os contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina, o tender Belmonte e o rebocador Laurindo Pitta. Este, ainda em atividade fazendo agradáveis passeios turísticos pela Baía da Guanabara. Praticamente todos os navios eram de última geração, adquiridos em 1910, mas com tripulações pouco treinadas e problemas por falta de testes e uso. A D.N.O.G. recebeu a missão de patrulhar o Atlântico buscando submarinos alemães na região entre Dacar na costa africana, o Arquipélago de São Vicente e o estreito de Gibraltar, única saída do Mediterrâneo para o Atlântico. Na Primeira Guerra, a Itália e o Japão eram países aliados, mas a Turquia e todo o seu império no Oriente Médio fazia parte do bloco germânico. O efetivo era de 1.502 homens: 75 oficiais de armada, 4 médicos, 50 oficiais de máquinas, 5 oficiais comissários (intendentes), um farmacêutico, um dentista, um capelão, um sub-maquinista, 41 suboficiais, 43 mecânicos, 4 auxiliares de fiel, 702 marinheiros, 481 foguistas, 89 taifeiros, um padeiro e três barbeiros. 


DNOG pres Wenceslau Bras e Almt Frontin antes do embarque
1918 - Pres Wenceslau Bras a Almt Forntin em foto oficial antes do embarque - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil
Naquela época o oficialato era composto por brancos enquanto os marujos, sargentos e suboficiais eram quase todos negros. No dia primeiro de agosto de 1918 a D.N.O.G. inicia suas atividades, saindo do porto do Rio. Nas palavras do Almirante Frontin: “Cada homem, em cada navio, sabia exatamente o que fazer nas emergências. A guerra, na verdade, iria começar.” Na noite de 25 de agosto, patrulhando a região entre Dacar e Freetowm foi atacada por um submarino alemão. Não houve danos ou baixas. 


DNOG cruzador Bahia
1918 – Cruzador Bahia em ação na DNOG - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil
 
Mas 1918 foi o início da terrível Gripe Espanhola, que ceifou a vida de 20 a 40 milhões de pessoas. Os dados não são precisos, pela falta da estatística oficial em países como China e no sub-continente indiano. Os jornais brasileiros tinham notas de primeira página com o número de mortos diários vítimas da "Peste." Uma das notícias é curiosa: "Peste: ninguém morreu ontem em Niceteroy." Dá para imaginar o terror da epidemia. A frota brasileira não escapou e precisou ficar imobilizada por dois meses no porto de Dakar, onde 156 marinheiros faleceram e mais de 300 ficaram incapacitados temporariamente. Alguns historiadores citam essas baixas como uma vergonha, como algo que pudesse ser evitado. Mas são baixas de guerra. Só como comparação, 80% das mortes da frota americana foram devidas à gripe. Nossos marujos, incluindo sete oficiais, um deles médico e quatro suboficiais foram sepultados em um cemitério específico em Dakar. Em 1928 seus restos mortais foram trazidos para solo brasileiro e estão no mausoléu aos heróis da D.N.O.G. no cemitério São João Batista, logo atrás do mausoléu da família Aranha, onde repousa o inesquecível chanceler Oswaldo Aranha. A D.N.O.G. conseguiu se juntar à esquadra britânica apenas 48 horas antes da assinatura do armistício que pôs fim à “guerra para acabar com todas as guerras”. Voltou ao Brasil após uma visita de boa vontade à Inglaterra. 


DNOG cemitério brasileiro e
Cemitério brasileiro da DNOG em Dakar - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil – sem data, tirada provavelmente pela equipe que providenciou a exumação e traslado em 1928

 
Essa pequena participação brasileira rendeu frutos pouco conhecidos. Uma grande delegação de diplomatas brasileiros participou da Conferência de Paz de Paris que deu origem ao Tratado de Versalhes, onde a Alemanha foi obrigada a pagar pesadas indenizações por ter iniciado a guerra. Nosso representante na mesa de Versalhes foi Epitácio Pessoa. Depois seria presidente do Brasil de 1919 a 1922. Pelo Tratado, o Brasil recebeu pagamento com juros pelo café perdido com os navios afundados e ainda incorporou à frota brasileira 70 navios do bloco germânico apreendidos em águas e portos brasileiros. Na esteira dessa participação na Primeira Guerra Mundial e de sua diplomacia, o Brasil foi um dos fundadores da Liga das Nações, entidade que faliu após o Brasil se retirar dela. Após a Segunda Guerra Mundial foi recriada como Organização das Nações Unidas, também com participação decisiva do Brasil. 

Após o Brasil sair da neutralidade houve várias campanhas de arrecadação de fundos para a Cruz Vermelha. A Companhia Israelita de teatro de H. Starr promoveu eventos beneficentes. A Sociedade Beneficente e Funerária Israelita (das Polacas) e a União Israelita levantaram fundos entre a comunidade e os enviaram à Cruz Vermelha. 

Os judeus brasileiros foram e voltaram (ou não) da guerra sem despertar maior interesse. Mas em 9 de outubro de 1918, chegaram ao Rio, de passagem, 52 voluntários judeus uniformizados do 52o Batalhão de Caçadores do exército argentino. Só que a Argentina nunca declarou guerra à Alemanha e não se sabe o que foi feito destes homens. O jornal "A Epoca" é contundente: "Foi de uma imponência fóra do commum a manifestação de carinho promovida pela colonia israelita aos voluntários seus patrícios vindos de Buenos Aires... A Associação Sionista do Rio de Janeiro preparou uma acolhida digna aos destemidos voluntários que desembarcaram em meio das mais vivas acclamações." Foi uma recepção que surpreendeu a cidade. Existe o mito da pobreza dos imigrantes, mas não desta leva da primeira década, tanto que a comunidade compareceu no porto com 132 automóveis (seria sem precedentes até mesmo nos dias de hoje) "muitos com bandeiras dos alliados e outros com as de sociedades israelitas." Levando os soldados judeus do Cais do Porto para a sinagoga Tiferet Sion, dirigida pelo emblemático David José Perez. No salão da sinagoga foram recebidos por parte da comunidade, cantaram "Hatikva" (letra antiga) em conjunto. Em nome dos judeus árabes do RJ, discursou em árabe o "sírio sr Aron Atia" que cantou com todos o "Hymno Israelita" (não sabemos o que possa ser). 


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09-out-1918 – Publicado pelo jornal Revista da Semana – arquivo pessoal

 
Os jornais nos deixam conhecer os nomes de alguns destes judeus. Falaram pelos voluntários argentinos o soldado Gustavo Adolpho Buhler, o tenente Wladmir Herman e um jornalista judeu chamado D.M. Menchez, engajado como soldado. Também falaram os outros membros da diretoria da Tiferet Zion, Jacob Schneider, Sinnai Faingold, Boris Tcholrnei e Tuli Sensler. 


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09-out-1918 – Publicado pelo jornal A Epoca – arquivo pessoal

 Dois dias antes temos um registro curioso da Sociedade Israelita Shel Geumilut Hassadim doando 250$000 "para as primeiras 25 viúvas pobres que se apresentassem" ao jornal "O Imparcial." Eram as "viúvas da peste, ou da Gripe Espanhola. A quantia foi obtida durante a festa de Simcha Torah daquele anos. Outros judeus, se cotizaram e obtiveram mais 600$000 entregues para a Cruz Vermelha na mesma ocasião.
O período da Primeira Guerra Mundial é um período importante para o Sionismo. Vários movimentos no Brasil, a Revolução Comunista, a Declaração Baulfour e a libertação da Palestina do domínio muçulmano turco. Também é um período com intensa perseguição antissemita em vários países europeu dentro e fora da guerra, começam a culpar os judeus pelo comunismo, mas isso é tema para outra matéria. 

Bibliografia

PRADO, Maia. D.N.O.G. – Uma página esquecida da Marinha Brasileira. Publicação da Marinha do Brasil, 1961.
FROTA, Guilherme de Andrea. 500 Anos de História do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2000.
EISENSTEIN, Douglas R. . Whispers in the Wind. Xlibris Corp.
MACDONALD, Lyn. 1915, the Death of innoncence.
PARET. Henry Holt Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora
MARTINS, Helio LeônciO, História Naval Brasileira vol V tomo I. Serviço de Documentação da Marinha
KEEGAN, John. An Illustrated History of the 1st World War. Knopf Corp.
TAYLOR, A J P. The First World War - An illustrated history. Penguim Books
HAUTHORNTWAITE, Philip J.. A photohistory of World War I. Brockhampton press
Agradecimento ao SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil cuja ajuda e compreensão permitiu o resgate deste momento histórico com ilustrações.

© 2012 – José Roitberg – jornalista e historiador
Fonte: http://roitblog.blogspot.com.br/2012/12/uma-guerra-que-o-brasil-esqueceu.html

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